OHIO, EUA — Pouco se sabe sobre as condições da casa onde três mulheres foram mantidas em cativeiro em Ohio, nos Estados Unidos, por uma década, mas o trio provavelmente irá passar por estresse pós-traumático, problemas de autoestima e dificuldade em tomar decisões, segundo psicólogos. Para um especialista do FBI, Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight sofreram o mesmo tipo de privação que prisioneiros de guerra. A polícia se recusou a dizer se as mulheres foram abusadas sexualmente, mas uma delas teria tido uma filha durante os anos em que foi mantida presa.
- Vai ser uma luta de longo prazo - diz Rona Fields, psicóloga especializada em violência contra as mulheres que tratou vítimas de tortura. - Gostaria de poder dizer, que elas vão ficar bem. Que basta lhes dar um pouco de calor, amor e canja de galinha. Mas não é o caso - explica ela ao USA Today.
Fields também acredita que elas terão problemas para se reconectar com os membros da família que não veem há anos. Amanda, Gina e Michelle, que desapareceram em incidentes separados há cerca de uma década, foram encontradas em uma casa no mesmo bairro operário de Cleveland onde haviam desaparecido.
- Elas terão que lidar com transtorno de estresse pós-traumático em sua forma mais grave - afirma Herbert Nieberg, professor de direito no Mitchell College, em Connecticut.
Ariel Castro, de 52 anos, foi motorista de ônibus escolar na área de Cleveland, em Ohio, até novembro passado. Ele e seus dois irmãos, Pedro, de 54, e Onil, de 50, foram presos na segunda-feira após as reféns terem escapado do cativeiro e chamado a polícia.
- É altamente provável que elas tenham síndrome de estresse pós-traumático, mas isso depende de como foram tratadas quando estavam lá - diz Peter Suedfeld, psicólogo especializado em adaptação a ambientes estressantes. - Meu conselho seria para deixá-las se acostumar com as coisas de forma gradual.
Nesta terça-feira, Elizabeth Smart e Jaycee Dugard, duas sobreviventes de sequestros nos EUA, pediram a população para que respeitassem a privacidade das três mulheres.
- É muito importante respeitar a sua privacidade e lhes garantir todas as oportunidades para encontrar seu próprio caminho de volta, o seu próprio caminho para a felicidade - disse Elizabeth disse em entrevista à ABC News na terça-feira.
Agora casada e ativista em casos de crianças desaparecidas, ela foi sequestrada com uma faca dentro de seu quarto em Salt Lake City, Utah, em 2002, aos 14 anos. A jovem foi resgatada nove meses depois. Jaycee Dugard, levada de um ponto de ônibus na Califórnia aos 11 anos, e mantida sob cárcere por 18 anos antes de ser libertada em 2009, enviou uma mensagem parecida em comunicado.
“Essas pessoas precisam da oportunidade de se curar e se conectar novamente com o mundo”, disse.
Austríaca presa por 8 anos vive isolada
Mas nem todos os sobreviventes de cativeiros conseguem. A jovem austríaca Natascha Kampusch, sequestrada em 1998 aos 10 anos, nunca se recuperou totalmente dos anos no cativeiro. Em agosto de 2006, quase dez anos depois, a jovem conseguiu fugir e chamar a polícia.
Hoje, Natascha vive sozinha com seu peixe de aquário e suas orquídeas e gosta de assistir a séries policiais na televisão. Ela parece ter tido muitos problemas para se adaptar à vida normal, e chegou a se afastar dos pais.
Sua educação também foi prejudicada. Apesar de ter completado seus estudos, começou a se preparar para ser ourives, mas desistiu. Em 2011 abriu um hospital infantil no Sri Lanka, financiado pelas muitas doações recebidas e com o dinheiro arrecadado com sua autobiografia. Sua melhor amiga é a sua cabeleireira, disse em uma entrevista a uma emissora alemã este ano.
- O momento em que sou mais feliz é quando estou sentada na cadeira e ela está penteando o meu cabelo. Tento levar cada dia de forma positiva, para conseguir enfrentar o que aconteceu - contou.